
Alguém ainda duvida que eles ficaram juntos?!
A novela A vida da gente acabou na última sexta-feira e tenho de confessar que há tempos uma melodrama televisivo não era capaz de ir tão fundo, de tocar tão profundamente nas feridas da vida, em uma linguagem tão poética que a maioria das pessoas não entenderam sua mensagem.
A telenovela, enquanto gênero, desde seu surgimento cativou o povo latino americano, pois em suas narrativas a gente encontra conforto aos nossos sonhos não realizados. Jesus Matín-Barbero (2009), ao tratar sobre o tema, diagnosticou essa identificação ao sugerir que nos melodramas televisivos ocorre um “Intercâmbio que é confusão entre narrativa e vida, entre o que faz o ator e o que se passa com o espectador…” (p.309)*. E quem ousa discordar de Barbero?
Todos os dias milhões de famílias se colocam diante de sua televisão e transferem para ela suas expectativas, muitas vezes não atingidas. Talvez por isso a gente sofra tanto para que mocinho e mocinha acabem juntos no final. E ai se não acabar! E eis que A vida da gente rompeu com o esteriótipo e deu a chance de outros personagens acabarem ao lado de seus grandes amores.
Após o capítulo, que sim, me fez chorar litros, visitei o site de algumas revistas para saber qual foi o impacto do desfecho sobre a audiência, e claro, sem nenhuma surpresa, constatei que grande parte do público se revoltou. Mas o que mais me deixou inquieta não foi o fato das pessoas não terem gostado do final, e sim da negação em entender o texto, a profundidade dessa narrativa, tão metafórica. Se prestássemos atenção à construção da obra, perceberíamos que sim, herói e mocinha terminaram juntos, não como homem e mulher, mas juntos, como podemos ver na fala do personagem de Rafael Cardoso:
“Ana, minha querida, dizem que o amor acaba e que o amor termina. Mas não é verdade, nada acaba, tudo muda, continua e se transforma. Enquanto aguardava a cirurgia delas, mil anos se passaram…E foi, então, que eu vi nós dois juntos rompendo fronteiras.”
E só por que eles não ficaram casados, criando sua filha, dentro dos moldes da moral religiosa toda a obra pode ser reduzida a nada?! Fazendo um paralelo literário, sim, porque A vida da gente chegou a esse patamar, será que esse final clichê, tão esperado pelo público, não seria o que levaria a novela a ser apenas mais uma? Madame Bovary, Dom Casmurro, Lucíola e Triste fim de Policarpo Quaresma, por exemplo, não seriam as obras que são se não fossem pelo seu final!

Em uma trama em que fotografia, trilha sonora, elenco e texto dialogaram, em que Guimarães Rosa e filósofos gregos foram retomados no processo de explicação dos destinos, o que a gente ainda se preocupa é com o fato de a Ana não ter ficado com o Rodrigo? Epa, mas por que personagens secundários sempre tem que se consolar com um amor tapa buraco? Por que uma história construída em anos de companheirismo e cumplicidade como a do Rodrigo com a Manu teria que acabar por causa de uma paixão, que como dizia a Nanda, desorganizava a vida? Gente, a novela chama A vida da gente e a vida é mesmo assim, a evolução das coisas. Transformação de sentimentos e sonhos, que, como Ana disse “há novos sonhos do lado de cá da fronteira”.
O desfecho foi sensacional, se parte do público não gostou, além da questão da interpretação do texto que falei há pouco, a sugestão de Barbero se reforça. Sim, projetamos na narrativa aquilo que não atingimos. Não pensamos a obra como uma obra, mas como um conforto à realidade. Se o desfecho não houvesse sido assim, as personagens não teriam evoluído, mas se conformado. E chega de pseudo-moralismo afirmando que a irmã roubou a vida da outra, que blá, blá, blá! Ninguém sabe o que o tempo pode fazer com nossa vida, era o tempo todo essa a mensagem da novela! Arrisco o palpite que nem em cem anos a Globo conseguirá produzir novamente uma novela assim, pois ao contrário de muitas outras que prometiam ser boas, como por exemplo, Cordel Encantado, a narrativa estava bem amarrada!
*MARTÍN_BARBERO, Jesús. Os métodos: dos meios às mediações. Em: Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. RJ: Editora UFPR, 2006.